terça-feira, 12 de maio de 2015

As causas do Alto Custo da Saúde

O modelo de assistência à saúde baseado em exames e internações foi debatido na mesa redonda sobre o aumento dos custos e o futuro da saúde privada, realizada nesta segunda (11), no 2º Forum a Saúde do Brasil, promovido pela Folha, mediado pela repórter especial Cláudia Collucci.

A cultura de realizar mais procedimentos para ter mais lucros e a crença de que a melhor forma de cuidar da saúde é usar a tecnologia foram apontados como causas importantes do alto custo da saúde no Brasil por Martha Regina de Oliveira, diretora-presidente substituta da ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar).

"É preciso repensar o que significa resultado em saúde. Não é só a quantidade de procedimentos realizados", disse Oliveira.

Como exemplo, ela diz que, enquanto em países da Europa e América do Norte são realizados 40 exames de ressonância a cada mil pessoas por ano, no Brasil este número sobe para 80.

"É o dobro. Se pelo menos a gente tivesse os mesmos resultados em saúde, eu já estaria feliz."
Para Francisco Balestrin, presidente do conselho de administração da Anahp (Associação Nacional dos Hospitais Privados), apontar este ou aquele setor da cadeia de serviços de saúde como causa do problema não leva a lugar nenhum.

Balestrin afirma que é preciso mudar o modelo de gestão com ações como a criação de redes, a partir de instituições hospitalares, que incluam desde assistência primária até os serviços de tecnologia. A reunião de diferentes instituições para a compra conjunta de medicamentos, diminuindo seu custo, foi outro exemplo de novas formas para gerir serviços de saúde citadas por Balestrin.

"O desperdício da verba para a saúde não é causado só pela corrupção", disse Balestrin, referindo-se à primeira mesa do fórum, em que Pedro Ramos, diretor da Abramge (Associação Brasileira de Medicina de Grupo), citou a máfia das próteses durante o debate.

O envelhecimento da população, o aumento de doenças degenerativas e a crise macroeconômica foram citados pelo representante dos hospitais privados, ao afirmar que os custos das instituições hospitalares tiveram um aumento de 13%.

Esse panorama deve ser encarado com um tipo de assistência em saúde que Eudes Aquino, presidente da Unimed Brasil, chama de "horizontalizada", baseada em promoção de saúde, prevenção de doenças, recuperação e reabilitação.

Ele também defendeu as parcerias público-privadas como um dos caminhos para melhorar o atendimento à saúde. "A medicina privada não pode ser o muro das lamentações do insucesso do plano de saúde nacional".

Os três participantes da mesa apontaram as parcerias como um caminho para o futuro da medicina privada.

"Nós do setor privado, sob a liderança ou com a colaboração da ANS, precisamos buscar ações estruturais para criar um novo modelo de gestão", disse Balestrin. 

Fonte: Folha de São Paulo/ 12.05.2015

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Como a Unimed construiu a maior rede hospitalar privada do País


Durante muitos anos existiu uma separação clara entre operadoras de planos de saúde e administradoras de laboratórios, clínicas e hospitais.

No entanto, a popularização da saúde privada,decorrente da cronificação da crise da saúde pública aliada ao acirramento da competição, fez com que muitas delas optassem por atuar de forma verticalizada. Não bastava mais ter parceiros conveniados.

Era preciso construir hospitais, prontos-socorros, laboratórios e centros de diagnóstico próprios. O objetivo era claro: reduzir custos e aumentar a lucratividade. Nessa estratégia, ninguém foi tão longe quanto a rede Unimed. Silenciosamente, a miríade de 360 cooperativas, federações e confederações que formam a Unimed, uma potência que faturou R$ 39 bilhões e conta com 19 milhões de segurados, montou o maior grupo privado do setor de saúde no País.

São 110 hospitais, 170 prontos-socorros, 69 laboratórios e 43 centros diagnósticos – em termos de estrutura, está atrás apenas das Santas Casas, que não têm fins lucrativos, donas de 454 hospitais geridos individualmente. Esses números mudam rapidamente ; a cada semana surgem novas unidades.

É que apenas neste ano serão inaugurados ou reformados oito hospitais, representando um desembolso de R$ 150 milhões. “Esse tipo de investimento é uma tendência para as empresas que atuam com saúde complementar”, diz o médico Mohamad Akl, presidente da Central Nacional Unimed, a associação entre diferentes federações de Unimeds, criada para atender planos corporativos de empresas presentes em diversos Estados. Essa estratégia começou a ganhar força a partir de 2005.

Apenas para chegar aos seus atuais cinco mil leitos foram gastos R$ 2,5 bilhões. Os resultados já começam a aparecer na “ponta do bisturi”. Além de fazer o dinheiro circular dentro do sistema, direcionar segurados para um de seus hospitais pode significar uma diferença de preços de até 1.000% na compra de insumos e em cirurgias complexas, como as cardíacas. O montante é diretamente proporcional à complexidade do caso.

Alguns cooperados têm uma visão contrária à verticalização. De alguma forma entendem que a iniciativa de edificação dos serviços hospitalares devam ocorrer entre os próprios médicos. Porém , quem se habilita?
  

Basicamente é uma questão de gestão. Para reembolsar um hospital conveniado pelo uso de um cateter duplo, por exemplo, a Unimed gasta R$ 1,3 mil em uma rede conveniada. Quando ela mesma compra esse insumo hospitalar, a conta fica em R$ 180. Observando pela ótica da despesa e da aritmética, fica evidente que a opção das Unimeds faz sentido. “De fato, ter o próprio hospital permite um controle muito maior sobre toda a complexa cadeia de fornecedores da saúde, o que deve se traduzir em resultados melhores”, diz Silvio Laban, coordenador dos MBAs da escola de negócios Insper. “Por outro lado, muitas vezes a formação básica dos gestores de planos de saúde é a medicina, e é complicado administrar um hospital sem conhecimento de gestão de negócios.” É nesse ponto que reside o maior risco para as Unimeds. Mesmo internamente, seu gigantismo é visto como força e fraqueza simultaneamente.


Tanto isso é verdade que a piada predileta dos funcionários é se referir ao sistema como “Complexo” Unimed, que pode ser compreendido tanto como uma forma de demonstrar seu tamanho, quanto pela dificuldade de entendê-lo.

Fonte:Revista Isto É Dinheiro
Editoria: Pág 72 / 73
Data: Maio/2013